Ian Gillan, muito além de “Child in Time”

Do Deep Purple a Jesus Christ Superstar, conheça a trajetória de Ian Gillan, seus discos com Gillan e Black Sabbath e a parceria com Tony Iommi.
Ian Gillan canta ao microfone, de olhos fechados, sob luzes coloridas no palco.

Ian Gillan ajudou a definir a voz do Deep Purple, interpretou Jesus na gravação original de Jesus Christ Superstar e gravou um álbum com o Black Sabbath. Entre esses trabalhos, construiu uma discografia própria que passa pelo jazz-rock e pelo hard rock mais direto. Seus agudos ficaram famosos, mas contam apenas uma parte dessa história.

Há um momento em Made in Japan em que a divisão entre cantor e instrumentista praticamente desaparece. Durante “Strange Kind of Woman”, Ritchie Blackmore lança uma frase na guitarra e Gillan responde com a voz. A provocação continua, as frases mudam, a dificuldade aumenta. O que poderia ser apenas uma exibição de alcance vocal vira uma conversa musical: os dois se escutam, se desafiam e parecem interessados em descobrir até onde aquilo pode ir.

Essa passagem ajuda a entender Gillan melhor do que qualquer ranking de grandes vocalistas. Ali estão o ouvido, o humor, o gosto pelo risco e a capacidade de improvisar dentro de uma banda que também improvisa. O álbum reúne apresentações realizadas em Osaka e Tóquio, em agosto de 1972, com Blackmore na guitarra, Jon Lord nos teclados, Roger Glover no baixo, Ian Paice na bateria e Gillan nos vocais.

O balanço das frases, a dicção e a liberdade de soar contido em um instante e desvairado no seguinte merecem tanta atenção quanto as notas altas. Para acompanhar como esse cantor se formou, é preciso voltar aos anos anteriores ao Purple.

De Hounslow ao Episode Six

Ian Gillan nasceu em Hounslow, na Inglaterra, em 19 de agosto de 1945. Suas referências iniciais incluíam Elvis Presley e Little Richard. Esse parentesco com o primeiro rock ajuda a explicar uma característica que permaneceu em sua música: mesmo quando o som fica pesado, há espaço para malícia, movimento e diversão.

Antes dos grandes palcos vieram os Javelins e, depois, o Episode Six, no qual conheceu Roger Glover. O aprendizado passou por harmonias vocais e temporadas de trabalho intenso em clubes. Em entrevista publicada pelo The Strange Brew, Gillan recordou as apresentações sucessivas na Alemanha e a temporada do grupo no Líbano. A profissão se aprendia cantando noite após noite.

Quando Gillan e Glover chegaram ao Deep Purple, em 1969, já carregavam uma convivência musical e uma parceria de composição. Encontraram três músicos com personalidades muito definidas: a guitarra incisiva de Blackmore, o órgão de Lord e a bateria de Paice. Essa formação ficou conhecida como Mark II, a segunda formação da banda.

O Purple já existia e tinha gravado “Hush” com o vocalista Rod Evans. A chegada de Gillan acompanhou a aproximação do grupo com um som mais pesado. Seu canto tinha presença para enfrentar a intensidade dos instrumentos e flexibilidade para participar dos improvisos.

In Rock, Machine Head e Made in Japan

Em In Rock, de 1970, “Speed King” e “Child in Time” oferecem dois retratos desse cantor. A primeira tem a urgência do rock’n’roll levado a uma condição quase febril. A segunda trabalha com espera, repetição e crescimento.

“Child in Time” costuma ser tratada como uma prova de resistência para vocalistas. Essa abordagem deixa escapar uma qualidade central da interpretação: a distância entre o começo e a explosão. Gillan sustenta a atenção quando ainda há pouco volume, dá intenção às repetições e faz cada subida parecer necessária.

Os agudos carregam a tensão acumulada. Separados da música, seriam um feito atlético. Dentro dela, tornam-se parte do drama. A apresentação de 1970 preservada no canal Deep Purple Official permite acompanhar essa construção e observar a atuação da formação Mark II.

“Deep Purple – Child In Time – Live (1970)”, do canal Deep Purple Official: apresentação no programa britânico Doing Their Thing.

Depois de Fireball, de 1971, Machine Head, de 1972, colocou essa voz em músicas com personalidades bastante diferentes. Em “Lazy”, o canto participa do balanço da banda e entra entre as frases dos instrumentos. Em “Highway Star”, a entrega é frontal, acompanhando o impulso da música e dando convicção à fantasia de velocidade.

“Smoke on the Water” pede outro comportamento. O riff domina a memória coletiva, mas os versos precisam contar uma história: o incêndio durante um show de Frank Zappa em Montreux e as dificuldades que se seguiram para gravar o disco. Gillan conduz o relato sem transformar cada frase numa demonstração de força.

Made in Japan, lançado em 1972, registra o que acontecia quando esse repertório ia para o palco. As versões se expandem, e o cantor precisa ouvir e reagir. O diálogo com Blackmore em “Strange Kind of Woman” mostra quanto havia de instrumentista em sua maneira de cantar.

Gethsemane e Jesus Christ Superstar

Em meio à primeira fase do Purple, Gillan interpretou Jesus no álbum original de Jesus Christ Superstar, de Andrew Lloyd Webber e Tim Rice, lançado em 1970. Sua participação pertence à gravação de estúdio que apresentou a obra, anterior ao filme de 1973.

Segundo o cantor, Rice havia ouvido seu trabalho com o Purple e o convidou para conhecer o projeto. Na preparação, Lloyd Webber apresentou a melodia ao piano. Gillan foi encorajado a preservar sua maneira de cantar e improvisar, respeitando a composição, como contou ao The Strange Brew.

“Gethsemane” exige que o intérprete atravesse dúvida, revolta, medo e aceitação. Gillan dá a essas mudanças uma intensidade física. A aspereza da voz faz o personagem parecer exposto; os momentos mais altos chegam como consequência de um conflito presente nas frases anteriores.

Ouvir essa gravação ao lado de “Child in Time” esclarece a dimensão dramática de seu canto. Ele sabia construir uma crise dentro de uma música. A potência vocal era um dos meios para fazer isso.

As bandas Ian Gillan Band e Gillan

A primeira passagem pelo Deep Purple terminou em 1973. Em depoimento retrospectivo recuperado pela Classic Rock, Gillan descreveu uma convivência desgastada, na qual os integrantes viajavam e comiam separados, encontrando-se sobretudo para trabalhar. É o relato do cantor sobre o custo de uma rotina que, vista de fora, parecia representar o auge da banda.

Sua produção posterior merece atenção própria. Ian Gillan Band e Gillan foram projetos distintos, com propostas e formações diferentes. Em Clear Air Turbulence, de 1977, a Ian Gillan Band se aproxima do jazz-rock: as músicas abrem espaço para passagens instrumentais extensas e mudanças de atmosfera. O registro principal do álbum no Discogs reúne essa combinação de hard rock, rock progressivo e jazz-rock.

Com Gillan, a direção se torna mais direta e agressiva. Mr. Universe, de 1979, inclui “Vengeance” e “Roller”, ambas com participação do cantor na composição. Seus créditos ajudam a lembrar que sua contribuição também estava no desenvolvimento das músicas.

Em Glory Road, de 1980, essa identidade ganha uma formação especialmente interessante: Bernie Tormé na guitarra, John McCoy no baixo, Colin Towns nos teclados e flauta, Mick Underwood na bateria e Gillan nos vocais. São os músicos identificados nos créditos da edição consultada no Discogs.

“Unchain Your Brain” expõe a velocidade e a agressividade desse conjunto. “No Easy Way” e “If You Believe Me” oferecem outros espaços para o cantor. Há uma energia áspera nesses discos, com menos solenidade do que alguém poderia esperar de um ex-integrante de uma banda gigantesca.

Born Again e o retorno ao Deep Purple

Em 1983, Gillan gravou Born Again com o Black Sabbath, ao lado de Tony Iommi, Geezer Butler e Bill Ward. A banda havia passado pela demissão de Ozzy Osbourne em 1979 e pelos discos com Ronnie James Dio. Gillan chegava a um grupo cuja identidade vocal já tinha mudado profundamente.

A guitarra de Iommi cria uma densidade diferente daquela encontrada no Purple. Gillan responde com um canto agitado, cortante, por vezes excessivo. Em “Trashed”, o atrito combina com a velocidade da faixa. Em “Disturbing the Priest”, a teatralidade vocal torna o ambiente ainda mais estranho. O próprio site de Iommi reconhece a recepção dividida da produção do álbum.

A curta passagem pelo Sabbath foi seguida pelo reencontro da formação clássica do Deep Purple em Perfect Strangers, em 1984. A faixa-título oferece um Gillan mais grave e contido, capaz de sustentar o clima da música sem depender da aceleração dos primeiros discos.

Ele foi demitido do Purple em 1989 e retornou em 1992. O reencontro com Blackmore produziu The Battle Rages On…, de 1993, mas a convivência não se sustentou: o guitarrista deixou a banda naquele ano. Gillan permaneceu e participou da fase com Steve Morse, incluindo Purpendicular, de 1996. A história continuou além das tentativas de manter reunida a formação dos anos 1970.

WhoCares e a escola de música em Gyumri

A ligação com Iommi também continuou. Décadas depois de Born Again, os dois trabalharam no projeto beneficente WhoCares, voltado à reconstrução de uma escola de música em Gyumri, na Armênia. O lançamento de “Out of My Mind” e “Holy Water” integrou esse esforço.

A escola foi inaugurada em 20 de setembro de 2013, com a presença de Gillan. A reportagem da NEWS.am publicada naquele dia registra a visita às instalações e o encontro com os alunos. É um desdobramento concreto de uma parceria que muita gente recorda apenas pelo disco de 1983: músicos que voltaram a trabalhar juntos para que outras pessoas pudessem aprender a tocar.

A carreira de Gillan fica mais rica quando escutada seguindo essas relações e escolhas. O rapaz formado pelo primeiro rock aparece no vocalista de hard rock; o improvisador aparece no intérprete de uma ópera; o compositor aparece nos discos das bandas que levam seu nome.

E então vale voltar a “Strange Kind of Woman”, em Made in Japan. Blackmore toca, Gillan responde, e a conversa continua. Por alguns minutos, décadas de reputação dão lugar ao que se ouve: um músico atento ao outro, arriscando a próxima frase.


Fontes e créditos

Imagem principal: Ian Gillan com o Deep Purple no Lieder am See, em 16/07/2022. Foto: Stefan Brending (2eight), via Wikimedia Commons. Obra: “2022 Lieder am See – Deep Purple – Ian Gillan – by 2eight – 9SC6607.jpg”. Licença Creative Commons CC BY-SA 3.0 DE. Original preservado; versões redimensionadas automaticamente pelo WordPress. Foto de arquivo, posterior aos acontecimentos dos anos 1970 e 1980.

Texto gerado por inteligência artificial, com pesquisa em fontes identificadas. As observações sobre interpretação vocal são análises do artigo. Não houve revisão humana integral declarada.