Arthur Verocai: como o álbum de 1972 ganhou novas vidas em vinil

O álbum de 1972, seus participantes, a aproximação com o hip-hop e quatro edições em vinil, da Continental à Mr Bongo.
Capa do álbum Arthur Verocai, com uma pessoa sentada diante de uma fachada de janelas verdes e o nome do artista em rosa.

Lançado pela Continental em 1972, o primeiro álbum de Arthur Verocai voltou a circular em reedições brasileiras e estrangeiras e encontrou novos ouvintes entre colecionadores e produtores de hip-hop. Essa trajetória passou pelo reaproveitamento de suas gravações em outras músicas e pela volta do disco às lojas. Uma de suas reedições, anunciada pela Mr Bongo em 2016, utilizou uma remasterização feita em 2012 a partir das fitas da Continental, sob supervisão do compositor.

O álbum leva apenas o nome de Verocai. Em dez faixas, reúne canções, passagens instrumentais, cordas, sopros e uma formação de músicos cujos nomes ajudam a compreender o encontro de diferentes experiências naquela gravação. Para conhecer sua história, vale acompanhar tanto o trabalho no estúdio quanto os caminhos percorridos pelo LP depois de 1972.

Um arranjador à frente do próprio disco

Arthur Verocai, compositor, arranjador e guitarrista do Rio de Janeiro, já trabalhava em gravações de outros artistas quando fez sua estreia em álbum. A apresentação de sua carreira publicada pela Far Out Recordings cita trabalhos de orquestração para nomes como Ivan Lins, Jorge Ben e Gal Costa. Fazer arranjos significa organizar a participação dos instrumentos e das vozes: decidir como entram, o que tocam e como se combinam.

No disco de 1972, registrado no Studio Somil, Verocai aparece nos créditos como arranjador, regente, compositor, instrumentista e cantor. Vitor Martins divide a autoria de boa parte do repertório; “Dedicada a Ela” é uma parceria com Paulinho Tapajós. Esses créditos estão documentados na ficha da edição brasileira no Discogs.

A relação de participantes também revela encontros específicos. Célia canta em “Seriado”; Paulo Moura toca saxofone soprano em “O Mapa”; Hélio Delmiro participa com guitarra em “Karina (Domingo no Grajaú)”. Ao seguir esses nomes, o ouvinte encontra outras portas de entrada para a música brasileira daquele período.

Como gravar tantos instrumentos em quatro canais

Em uma conversa com Jeff Chang na Red Bull Music Academy, em 2006, Verocai explicou uma dificuldade prática da gravação: havia apenas quatro canais disponíveis. Eram quatro espaços para registrar e combinar os sons, uma limitação importante para um trabalho com tantos instrumentos.

Segundo seu relato, guitarra, baixo, bateria e percussão foram distribuídos inicialmente em dois canais. As cordas ocuparam outro, e a voz, o restante. Os efeitos de sintetizador entraram durante a mixagem, etapa em que os sons gravados são equilibrados para formar a versão final.

Na mesma entrevista, o compositor citou referências tão diferentes quanto os Beatles, Burt Bacharach, Frank Zappa e Stan Kenton. Disse que levou para o álbum as músicas de que gostava. O depoimento ajuda a entender por que a gravação reúne experiências do samba, do soul e do jazz sem depender de uma única formação instrumental.

O encontro com produtores de hip-hop

Décadas depois, trechos do álbum passaram a integrar novas gravações. Esse procedimento, conhecido como sample, reaproveita uma parte de um registro sonoro em outra composição ou produção.

O encontro está documentado na entrevista de 2006: Verocai conversou sobre o uso de sua música por Little Brother e MF DOOM. Durante a sessão, foi tocada “We Got Now”, do Little Brother, para apresentar um exemplo dessa aproximação. O compositor demonstrou satisfação ao perceber que outros músicos se interessavam pelo seu trabalho.

As reedições acompanharam essa circulação. O Discogs registra uma edição norte-americana de 2003 pela Luv N’ Haight, com o catálogo LHLP042. A existência desse lançamento mostra que a retomada do álbum em vinil já acontecia antes da edição da Mr Bongo.

Em 2016, a The Vinyl Factory produziu um pequeno documentário sobre o disco e sua recepção. O filme reúne os relatos de Eothen “Egon” Alapatt, da Now-Again Records, e Dave Buttle, da Mr Bongo, em torno da reedição apresentada na loja Rappcats, em Los Angeles. Verocai não participa desse encontro filmado.

Assista a “The Legend of Arthur Verocai”, do canal The Vinyl Factory, produção também divulgada pela própria Mr Bongo:

Quatro edições para acompanhar essa trajetória

O mesmo álbum reaparece com selos, datas e números de catálogo diferentes. Os registros abaixo são exemplos documentados no Discogs, sem pretensão de reunir todas as prensagens:

Ano Selo e mercado registrado Catálogo Edição
1972 Continental — Brasil SLP-10.079 LP original, com capa dupla
2003 Luv N’ Haight — Estados Unidos LHLP042 Reedição em LP
2012 Polysom — Brasil 33116-1 Reedição comemorativa de 40 anos
2016 Mr Bongo — Reino Unido MRBLP133 / SLP-10.079 Reedição remasterizada, com capa dupla

A data de preparação do áudio merece atenção. No anúncio publicado em junho de 2016, a Mr Bongo informa que utilizou as fitas da Continental e uma remasterização de 2012, supervisionada por Verocai. São datas de etapas diferentes: gravação original, remasterização e lançamento da reedição.

O registro de 2016 também conserva o código SLP-10.079 ao lado de MRBLP133. Portanto, encontrar o número da Continental na embalagem não basta para identificar um exemplar de 1972. É preciso comparar selo, inscrições próximas ao centro do disco e demais características, como explica o guia de identificação de edições do VINIL.

Esses dados descrevem as edições; não estabelecem uma classificação de qualidade sonora. A indicação de 180 gramas na edição Polysom, por exemplo, informa o peso do disco. O VINIL explica essa distinção no artigo sobre peso, masterização e prensagem.

Depois do álbum de 1972

O interesse pela estreia também abriu espaço para acompanhar outros trabalhos de Verocai. Em 2007, a Far Out Recordings lançou Encore, com onze composições e participações de Azymuth e Ivan Lins. O disco oferece uma continuação para quem chegou ao compositor por suas gravações antigas.

Ouvir o álbum de 1972, conferir seus participantes e depois seguir para Encore permite conhecer dois momentos dessa produção. As reedições mantiveram a estreia em circulação; os trabalhos posteriores ampliam a escuta para além dela.


Fontes e informações editoriais

Imagem de abertura: reprodução da capa de Arthur Verocai (Continental, 1972), via Discogs. Autoria da fotografia e do projeto gráfico não identificada nas fontes consultadas. Autorização específica de uso não confirmada.

Texto escrito com auxílio de inteligência artificial. Não houve comparação sonora entre exemplares das edições citadas.